Sábado, 27 de Junho de 2009

Você confiaria em um dentista banguela?



Vez por outra aparece alguém que me pede para ensinar a tatuar. Tem acontecido com certa freqüência, ultimamente. Não é que eu não queira compartilhar conhecimento; só acho que a pessoa tem que ter interesse e realmente gostar de tatuagem.

Muita gente me procura pela internet, querem aprender técnicas. Gosto de conversar e de escrever, então invariavelmente respondo a esses emails. Como tatuagem envolve muito conceito e não apenas técnica, acredito mesmo que essa troca de idéias seja interessante. Mas invariavelmente essas pessoas desaparecem quando percebem que não vou fornecer um “manual de como tatuar”.

O que vejo muitas vezes são pessoas insatisfeitas com a própria situação (estudos, emprego, desemprego), que pensam que tatuar é fácil, divertido e dá uma boa grana. Ser um tatuador medíocre é fácil mesmo (por isso tem tantos por aí), basta ter um kit e os cobaias sempre aparecem para você treinar. Mas para ser um bom profissional é preciso muita paciência, estudo e empenho, é preciso gostar muito do assunto.

No início do ano encontrei uma antiga colega de faculdade. Fazia tempo que não a via, e em princípio fiquei contente com a visita ao meu estúdio. Mas ela foi direta: veio me ver porque queria aprender a tatuar. Legal, pensei, lembro-me que ela desenhava bem e realmente tinha grande interesse por várias áreas de artes; tinha, inclusive, um pezinho na área de artes cênicas e dança (ou um pezão, pois é com isso que ela trabalha hoje).

Se disse muito interessada na arte de tatuar, muita vontade aprender... Eu nunca imaginara que ela gostasse de tattoos, então não resisti à minha própria curiosidade e perguntei sobre as tatuagens que ela tinha no corpo. Foi grande a minha surpresa diante da negativa.

Acho estranho a pessoa querer se tornar tatuador(a) sem antes ter passado pela experiência de ser tatuado. Não me refiro (apenas) à dor, mas principalmente à noção do que é ter um desenho para sempre na pele, tanto no nível individual (pessoal e subjetivo) como no social (a reação de outras pessoas). Isso ajuda o tatuador a ter maior entendimento do que está fazendo, e consequentemente mais conceito e ética ao lidar com o corpo do outro.

E faz sentido alguém se dizer apaixonado por tattoo sem ter nenhuma em si mesmo?

Coloquei essas questões, argumentando que tatuagem não é apenas um desenho na pele, envolve muitas outras coisas, e é uma profissão que exige um certo conceito que só se adquire sentindo na própria pele a experiência de ser tatuado.

A sua resposta foi clara: “Gosto de tatuagens, mas não em mim. Não tem muito a ver comigo, porque como trabalho com dança é melhor que eu tenha a PELE LIMPA.”

Achei a frase infeliz. “Se você acha que tatuagem deixa a pele suja, por que quer fazer nos outros?” Mas isso só se passou dentro de minha cabeça, fiquei meio desconcertada; fui levando ela pra fora e me despedindo...

Mas por mais que me questione, não consegui entender os motivos reais pelos quais ela queria aprender a tatuar; e me arrependo até hoje por não lhe ter perguntado abertamente...

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

e mais de um ano depois...



De volta.
Anunciando a criação de um novo blog, para divulgação de meus trabalhos. Estou querendo 'aposentar' o fotolog aos poucos. No blog, tenho mais liberdade, não tenho limite de postagens diárias, posso colocar mais textos, organizar melhor... editar da maneira que bem entender.
Em um primeiro momento, pensei em reorganizar este blog, abrindo uma sessão para a divulgação dos trabalhos; mas depois achei melhor não misturar as coisas - assim a navegação fica mais fácil de acordo com o interesse do leitor.
...
Muito tempo sem aparecer por aqui... meu solo andou infértil, as águas, escassas... mas as idéias para o novo blog trouxeram novos ares. Sinto cheiro de chuva, o rio voltará a fluir!

Domingo, 25 de Novembro de 2007

"Sobre comida", ou " Culinária e feminismo"



Já me cansei de ouvir algumas mulheres ditas “emancipadas”, ou “feministas”, falarem mal da mulher dona de casa e da mulher cozinheira. Como se isso fosse sempre um sinal de submissão, de escravidão. Como se fosse algo generalizadamente ruim. Com esse ponto de vista, o que fazem de fato é tirar a liberdade das que escolheriam se assim, é criar preconceitos. Emancipação feminina não é a mulher obrigatoriamente trabalhar fora de casa e seguir carreira profissional. Emancipação é a liberdade de escolha.

Abro espaço para falar mais particularmente da cozinha. Não consigo conceber muito bem (mas sei que existe) que alguém sinta prazer em lavar banheiro, passar pano no chão, varrer, limpar fogão. Mas a cozinha, ah... a cozinha! Cozinhar é uma espécie de arte; com um pouco de experiência é possível criar, inventar, misturando os ingredientes nas proporções exatas, antecipando o sabor pela imaginação, e apreciando-o depois pelo olfato e paladar.

Tenho pena das pessoas, homens ou mulheres, que se orgulham por “não saber fritar um ovo”. Não, não tenho pena por elas não saberem fritar o ovo, mas pelo orgulho estúpido com relação a isso. Dá a impressão de uma imposição, uma espécie de liberdade imposta (especialmente no caso das mulheres): não se sabe cozinhar para dizer que é livre, não precisa saber, porque tem alguém que faz isso por ela, não tem tempo para perder com esse tipo de 'serviço degradante'...

Eu gosto de cozinhar. (Visitem meu blog culinário!)
Claro que prazer mesmo é cozinhar com tempo, com elaboração. Mas também gosto eu mesma de fazer o almoço e janta de todo dia. Já ouvi muita crítica quanto a isso, por eu trabalhar fora de casa e ainda assim cuidar dessas coisas. Tem gente que acha que é para economizar. Não é. Gosto da comida que eu faço, confio. Sei que lavei bem as mãos e as verduras. Que tudo está dentro do prazo de validade e esteve acondicionado corretamente. Sei como foi feito e o que foi usado. Enfim, sei o que estou comendo. Claro que é muito bom sair para jantar às vezes, mas tenho uma teoria de que, se você comer fora (self-service, marmita, prato feito ou mesmo restaurantes) todo santo dia, de vez em quando haverá um desarranjo digestivo.

O alimento feito para comercialização nunca é preparado com tanto cuidado. A principal preocupação é que fique relativamente saboroso, simplesmente porque caso contrário não haverá retorno em dinheiro. A preocupação com a higiene também muitas vezes é por isso. Se o cliente come e passa mal, ou não gosta, o restaurante perde dinheiro.
Não digo que todos os restaurantes sejam assim, mas a maioria é.
Já a comida que se faz em casa não tem como função o lucro, mas a alimentação (nutrição), a saúde e o agrado ao paladar. E isso faz muita diferença.
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Domingo, 18 de Novembro de 2007

Promoção! Faça uma tattoo e leve uma hepatite de brinde!


Já comentei, em algum outro texto, sobre como os materiais de tattoo estão acessíveis atualmente, o que faz com que um grande número de pessoas, por dinheiro ou status (raramente por paixão e convicção), resolva comprar um kit e aprender a tatuar. Pessoas que nunca tiveram interesse e não sabem sequer o básico sobre desenho. Começam a mandar tinta na pele sem nenhum estudo e nenhuma noção de técnica. E o pior: sem saber o mínimo sobre biossegurança, higiene, assepsia, infecções e riscos de contaminação.

É claro que existem boas intenções, pessoas talentosas e realmente interessadas na arte, dispostas a trabalhar com ética e responsabilidade. Quem tem bom senso começa com humildade e da maneira certa: faz bons cursos de desenho, aprende a fazer no papel antes de se aventurar na pele; e busca todas as informações possíveis sobre biossegurança – para si e para os clientes. Mas infelizmente, esses são raros.

Há certo tempo atrás, tatuagem era associada a marginais, malucos. Felizmente, o preconceito foi diminuindo e cada vez mais as pessoas têm aderido aos desenhos no corpo. As técnicas se aprimoraram, permitindo a execução de desenhos mais perfeitos e detalhados.

Mas, com o aumento do número de tatuadores amadores, a quantidade de tatuagens mal feitas tem sido assustadora. E penso no pior: tatuagem, se não for feita corretamente, é um meio fácil de transmissão de doenças pelo sangue e fluidos do corpo. Ou você pensa que todos aqueles que adquiriram um kit têm noção de assepsia e esterilização?

É muito comum a pessoa comprar alguns materiais, tatuar amigos e conhecidos por 3 ou 6 meses, ver que não é tão fácil e desistir. O tatuador passou, mas o estrago que ele fez às pessoas durante o tempo em que esteve ativo, permanece.

Tenho receio de que isso faça com que o preconceito contra nós volte a aumentar – por causa das tatuagens mal feitas, por causa das doenças transmitidas pela falta de noção de alguns aventureiros. Que os tatuados voltem a ser associados a grupos de risco de algumas doenças, e a nossa profissão, ainda tão discriminada, seja ainda mais associada a “passatempo de doidão”.

Mas tenho esperança também de que, com esse grande número de maus tatuadores, as pessoas passem a valorizar mais o trabalho de um bom profissional, e a perceber que uma boa tatuagem depende muito mais do que apenas um kit de materiais.




ATENÇÃO: UMA TATUAGEM FEITA PROFISSIONALMENTE, POR QUEM TEM CONHECIMENTO, NÃO TRAZ NENHUM RISCO À SUA SAÚDE! Nenhum mesmo, fique tranqüilo. Se está pensando em se tatuar, vá antes ao estúdio para conhecer o local e os profissionais, veja se te inspira confiança, pergunte sobre processos de esterilização, onde são descartadas as agulhas, etc. Um profissional que trabalha com segurança não se importa em dar essas informações. E peça, claro, para ver fotos das tattoos realizadas pelo artista para conhecer a qualidade do trabalho.

Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Fragmentozinho do Orkut

Fiquei abismada com um tópico que vi em uma comunidade sobre tattoo no orkut, um dia desses, tamanha a ignorância e falta de bom senso de alguns supostos ‘profissionais’!
A pessoa havia feito uma tatuagem na véspera, e estava agasturada porque o tatuador lhe instruiu a não molhar o local da tattoo por pelo menos 15 dias (!!!). Ela queria lavar o cabelo, mas não sabia como fazer isso sem molhar a tatuagem, que era na nuca, ou costas.

Quem tem tatuagem sabe que é uma espécie de machucado superficial, e como qualquer ferida ou arranhão, é preciso higiene, tem que lavar para evitar infecções. E não vai ser um banho bem tomado que vai fazer a tinta sair ou desbotar. Depois da tattoo pronta, só laser pra tirar! Não precisa medo de sair no banho, hehehehehe.

Felizmente, uma boa alma já havia instruído a garota a entrar imediatamente embaixo do chuveiro e lavar a bendita bem lavadinha com sabonete e muita água.
Fiquei imaginando que espécie de ‘profissional’ era aquele, que além de não ter nenhuma experiência e conhecimento, também não tinha o mínimo de bom senso.

Também não pude deixar de imaginar a qualidade da tattoo, e o risco que essa pessoa estaria correndo com relação à própria saúde, já que o tatuador (se é que pode ser chamado assim), pelo visto, não tinha noções mínimas de higiene e assepsia.
O que ainda me custa a compreender é por que alguém se tatua com uma criatura dessas.

Um dia desses comentei sobre o aumento do número de tatuadores sem noção nenhuma da área. Bons materiais de tattoo são muito acessíveis atualmente, qualquer um pode comprar e começar a tatuar. Não é preciso que se tenha noções de desenho, técnica ou assepsia para se tornar 'tatuador'. Mas o que faz mesmo esse número aumentar é a falta de discernimento do público. Muita gente acha que o tatuador é apenas um aplicador de tinta na pele (não um artista e profissional da área de saúde), e que é tudo igual, a variação é somente no preço. E só percebe que não é bem assim quando sente (literalmente) na própria pele (ou pior ainda, no sangue)...

Se você está pensando em fazer uma tatuagem, procure um estúdio confiável, de preferência com recomendação. Peça para ver fotos dos trabalhos do profissional e observe se o estúdio segue as normas de assepsia prescritas pela vigilância sanitária. Procure um local que tenha alvará de funcionamento e da fiscalização sanitária. Uma tatuagem feita por quem não tem conhecimento e ética pode, na pior das hipóteses, ficar feia: desenho torto, borrado, ou com quelóide (cicatriz em alto relevo). Na pior das hipóteses, pode-se contrair doenças, como hepatite (que, sendo muitas vezes assintomática, várias pessoas têm e não sabem. E tem tratamento, mas não cura.)



Quinta-feira, 25 de Outubro de 2007

Aconteceu essa semana...



Um dia desses apareceu no estúdio uma mulher que queria fazer uma tattoo igual à da “deputada” que saiu este mês na Playboy. A dita cuja, como vocês devem estar imaginando, era a jornalista Mônica Veloso, ex-amante do presidente do senado Renan Calheiros, afastado por acusação de pagar pensão (e que pensão!) pra tal mulher com dinheiro público.
Mas diz que a tattoo era linda, ‘você ainda não viu?’
‘Não vi nem quero ver’...
É engraçado como as pessoas gostam de se inspirar em gente famosa, independente do motivo da fama – num caso como esse, não vejo realmente nada para se
orgulhar... mas o povo gosta e admira.
Eh, Brasil!!!

Domingo, 21 de Outubro de 2007

Orkut


Quando conheci o Orkut achei o máximo: comunidades sobre quaisquer assuntos imagináveis,com fóruns de discussão entre os membros. Parecia que tudo o que eu tinha interesse estava ali: se queria discutir qualquer tipo de filosofia, lá estava uma comunidade exatamente sobre isso. Se queria trocar informações sobre aquariofilia ou jardinagem, bastava procurar as comunidades sobre o assunto, que são inúmeras. Artes, quadrinhos, fotografia? Sirva-se!

E quantas, quantas comunidades sobre tattoo! Conheceria pessoas com interesses comuns, trocaríamos idéias e experiências, tudo muito levado a sério (pensava eu).

Poderia compartilhar minha ailurofilia nas comunidades de amantes dos gatos e dos animais. Trocar informações sobre autores e livros, discutir literatura!

Mas logo a minha empolgação inicial foi substituída por imensa decepção. Foram preciso algumas semanas ou meses para eu descobrir que não era bem assim. Que nessas comunidades, de maneira geral, não se discute quase nada além de aspectos pessoais dos membros. Que a maioria dos tópicos se refere à aparência/sensualidade/gostos da pessoa que postou por último.

Assim, se a comunidade é sobre filmes de terror, os tópicos que têm mais participação são os do tipo ‘beija (a pessoa acima) ou sai correndo?’, ou ‘a pessoa acima é um pesadelo ou um sonho?’, ou ainda ‘você convidaria a pessoa acima para ir ao cinema?’

Se é sobre tattoo, ‘que nota você dá pra tattoo da pessoa acima?’ Se é sobre música, ‘abaixa ou aumenta o volume (do som da pessoa acima)?’

Percebe-se que é sempre a mesma idéia, ‘o que você acha da pessoa acima’.

Quando há discussão, na maioria das vezes não há sensatez ou respeito, acabando sempre em xingamentos e ofensas pessoais.

Em sua maior parte.
Não quero dizer que não existam boas discussões, bons tópicos e boas comunidades no Orkut, não generalizo. Existem pessoas sérias e comunidades sérias. Fiz alguns bons contatos e aprendi muitas coisas verdadeiras e úteis. Agradeço de coração, por exemplo, alguns aquariofilistas experientes com quem aprendi muitas coisas.
Mas é raridade.

Não abro mais minha pasta de mensagens, atulhada de spams – a maior parte pornográficos.
Sem contar que a maioria dos perfis atualmente são ‘fakes’, criados para que pessoas se escondam atrás de anonimatos e se sintam mais à vontade para exporem seus verdadeiros (e muitas vezes podres) pontos de vista. Li uma reportagem, certa vez, que dizia que pelo menos 70% dos perfis do Orkut são falsos.

Mas ainda gosto do Orkut. Só que agora tenho outra visão. Gosto de observar o comportamento das pessoas e como elas se relacionam quando se sentem perfeitamente à vontade, protegidas por seus anonimatos, atrás de uma telinha e conversando por teclado, sem olhar nos olhos.
Acho interessantes suas opiniões e reações diante de determinados temas. Pelo Orkut, descobri (e continuo descobrindo) muitas coisas.

Descobri, por exemplo, através de uma comunidade anti-tattoo, por que algumas pessoas me olham tão estranho, na rua. Descobri que alguns têm nojo de gente tatuada, porque associam com doenças. São coisas que, de outra forma, eu jamais saberia, pois é um universo totalmente distante do meu. São coisas que as pessoas não dizem na cara, frente a frente, ainda que as sintam.

Descobri que existe Black Metal Cristão, o que achei um tremendo absurdo. Descobri que não é tão incoerente que eles usem cruz de cabeça para baixo, pois Pedro foi crucificado assim. Mas continuei achando estranho eles usarem ‘corpus painting’ (e usam!), já que essas pinturas faciais, em sua origem, são uma maneira de algumas pessoas negarem a sua ‘imagem e semelhança com Deus.’

Descobri que muita gente gosta de discutir só pra ter a última palavra, ainda que seu discurso, em um dado momento, se torne incoerente.
Descobri que tem gente que só quer ser do contra. Que discute sem ter ponto de vista definido.
Descobri que a maioria das pessoas não compreende, não sabe ler e não sabe escrever o próprio idioma.
E que tem gente que acredita seriamente que para ser um bom tatuador não é necessário saber desenhar, basta copiar o desenho através de um stencil e tudo bem.
E acreditam que podem aprender a tatuar apenas pegando algumas dicas no Orkut.
Descobri supostos ‘tatuadores’ que têm preconceito de gente muito tatuada.
E que tem gente que acredita no ‘vale dos tatuados’.

Acho tudo isso muito interessante. O modo como as pessoas se relacionam e o que se passa em suas mentes quando estão livres e em segurança garantida pelo anonimato da internet.
É uma maneira de observar, através de fragmentos, uma pequena amostra da natureza humana.