
Vez por outra aparece alguém que me pede para ensinar a tatuar. Tem acontecido com certa freqüência, ultimamente. Não é que eu não queira compartilhar conhecimento; só acho que a pessoa tem que ter interesse e realmente gostar de tatuagem.
Muita gente me procura pela internet, querem aprender técnicas. Gosto de conversar e de escrever, então invariavelmente respondo a esses emails. Como tatuagem envolve muito conceito e não apenas técnica, acredito mesmo que essa troca de idéias seja interessante. Mas invariavelmente essas pessoas desaparecem quando percebem que não vou fornecer um “manual de como tatuar”.
O que vejo muitas vezes são pessoas insatisfeitas com a própria situação (estudos, emprego, desemprego), que pensam que tatuar é fácil, divertido e dá uma boa grana. Ser um tatuador medíocre é fácil mesmo (por isso tem tantos por aí), basta ter um kit e os cobaias sempre aparecem para você treinar. Mas para ser um bom profissional é preciso muita paciência, estudo e empenho, é preciso gostar muito do assunto.
No início do ano encontrei uma antiga colega de faculdade. Fazia tempo que não a via, e em princípio fiquei contente com a visita ao meu estúdio. Mas ela foi direta: veio me ver porque queria aprender a tatuar. Legal, pensei, lembro-me que ela desenhava bem e realmente tinha grande interesse por várias áreas de artes; tinha, inclusive, um pezinho na área de artes cênicas e dança (ou um pezão, pois é com isso que ela trabalha hoje).
Se disse muito interessada na arte de tatuar, muita vontade aprender... Eu nunca imaginara que ela gostasse de tattoos, então não resisti à minha própria curiosidade e perguntei sobre as tatuagens que ela tinha no corpo. Foi grande a minha surpresa diante da negativa.
Acho estranho a pessoa querer se tornar tatuador(a) sem antes ter passado pela experiência de ser tatuado. Não me refiro (apenas) à dor, mas principalmente à noção do que é ter um desenho para sempre na pele, tanto no nível individual (pessoal e subjetivo) como no social (a reação de outras pessoas). Isso ajuda o tatuador a ter maior entendimento do que está fazendo, e consequentemente mais conceito e ética ao lidar com o corpo do outro.
E faz sentido alguém se dizer apaixonado por tattoo sem ter nenhuma em si mesmo?
Coloquei essas questões, argumentando que tatuagem não é apenas um desenho na pele, envolve muitas outras coisas, e é uma profissão que exige um certo conceito que só se adquire sentindo na própria pele a experiência de ser tatuado.
A sua resposta foi clara: “Gosto de tatuagens, mas não em mim. Não tem muito a ver comigo, porque como trabalho com dança é melhor que eu tenha a PELE LIMPA.”
Achei a frase infeliz. “Se você acha que tatuagem deixa a pele suja, por que quer fazer nos outros?” Mas isso só se passou dentro de minha cabeça, fiquei meio desconcertada; fui levando ela pra fora e me despedindo...
Mas por mais que me questione, não consegui entender os motivos reais pelos quais ela queria aprender a tatuar; e me arrependo até hoje por não lhe ter perguntado abertamente...






